Justificação Pela Fé

Justificação Pela Fé

  Romanos 3.21-26[1]   Mas agora, sem lei, se manifestou a justiça de Deus testemunhada pela lei e pelos profetas;Justiça de...

Justificação Pela Fé

 

Romanos 3.21-26[1]

 

  1. Mas agora, sem lei, se manifestou a justiça de Deus testemunhada pela lei e pelos profetas;Justiça de Deus mediante a fé em Jesus Cristo, para todos [e sobre todos] os que creem; porque não há distinção,
  2. Pois todos pecaram e carecem da glória de Deus,
  3. Sendo justificados gratuitamente, por sua graça, mediante a redenção que há em Cristo Jesus,
  4. A quem Deus propôs, no seu sangue, como propiciação, mediante a fé, para manifestar a sua justiça, por ter Deus, na sua tolerância, deixado impunes os pecados anteriormente cometidos;
  5. Tendo em vista a manifestação da sua justiça no tempo presente, para ele mesmo ser justo e o justificador daquele que tem fé em Jesus.

 

Introdução

 

O Breve Catecismo de Westminster, na pergunta 33, define assim a Justificação:

 

“Justificação é um ato da livre graça de Deus, no qual Ele perdoa todos os nossos pecados, e nos aceita como justos diante de Si, somente por causa da justiça de Cristo a nós imputada e recebida só pela fé”

 

A Justificação pela Fé é a principal doutrina do cristianismo, eu posso dizer que é uma das mais importantes doutrinas qual temos.

 

Martinho Lutero viveu entre 1483 e 1546, no Sacro Império Romano-Germânico, hoje a atual Alemanha. Ele era um jovem inteligente e teve a oportunidade de estudar Direito na universidade. Mas, por causa de uma promessa que ele fez em um momento de dificuldade, Lutero abandonou Direito e se tornou monge.

 

Naquela época, poucas pessoas tinham acesso à Bíblia e a única tradução disponível estava em latim. Lutero foi muito privilegiado, porque ele sabia ler latim e ainda aprendeu as línguas em que a Bíblia tinha sido escrita originalmente. Como monge, ele teve acesso à Bíblia e podia estudá-la livremente. Ele explicava as Escrituras de maneira que o povo comum podia entender.

 

A vida de Lutero foi impactada pela epístola que Paulo escreve ao Romanos, que diz:

 

“o justo viverá pela fé[2]”.

 

Lutero havia feito boas obras, orações e jejuns, para receber o perdão dos seus pecados, mas nada disso lhe trazia paz. Ele sabia que ainda era pecador. Mas, ao ler a Bíblia, ele entendeu que a salvação vem pela fé, que as obras, não o salvaria. Essa verdade se tornou o centro de sua vida, uma das frases mais conhecidas dele foi:

 

“Esta doutrina é a cabeça e a pedra fundamental. Por si só, ela gera, alimenta, edifica, preserva e defende a igreja de Deus. E sem ela, a igreja de Deus não poderia existir nem por uma única hora”.

 

A justificação pela fé é a doutrina central do cristianismo, a igreja cai ou permanece de pé por causa desta doutrina, ela é a espinha dorsal de todas as doutrinas bíblicas.

 

A justificação é uma sentença divina, na qual, Deus declara perdoado todo pecador que crer em Jesus Cristo, como seu único salvador.

 

A justificação é um ato de Deus no qual Ele declara, baseado na justiça de Jesus Cristo, e todas as exigências da lei estão satisfeitas com respeito ao pecador. A justificação não é condenação, mas sim, um ato único e legal que restaura o pecador à sua condição de filho de Deus.

 

Justificação é uma declaração e santificação é transformação. Mas, é a partir da justificação que o Espírito Santo inicia no pecador todo o processo de santificação até a sua glorificação.

 

O resgate da doutrina bíblica, nos leva a compreensão da justificação pela fé, ou seja, somente pela fé.

 

Os ensinos bíblicos deixam claro, que a justificação não é pelas obras, mas pela fé, as escrituras sagradas apontam para Cristo como Autor e Consumador da fé.

 

Nós somos salvos somente pela fé. Essa palavra declara que a salvação não vem de olhar para as nossas próprias obras de justiça, mas olhar para fora de nós mesmo, para outro, para a pessoa e obra de Cristo Jesus. João Calvino referiu-se a essa doutrina como:

 

“o principal ponto de apoio sobre o qual se articula a religião[3].

 

Nela está a essência do Evangelho, se nós, não entendermos o que a Bíblia diz sobre justificação, não nos deleitaremos em Deus e na sua obra bendita da salvação. O homem não obtém salvação pelas suas obras, boas ou por cumprir os 10 mandamento, como está escrito. Ele depende de Cristo, totalmente, sem Cristo, estamos condenados, pois é isto que merecemos, a condenação total.

 

Podemos dizer que a Justificação é o ato judicial de Deus, pelo qual Ele declara que o pecador não está mais sujeito à pena da Lei, mas restaurado por causa de Cristo. Preste a atenção, o homem vive debaixo da lei e da graça, mas o seu pecado foi justificado através de Cristo Jesus na cruz, pois se fosse somente pela lei, o homem jamais seria perdoado.

 

Há duas coisas que precisamos abordar e estar cientes quando falamos de Justificação.

 

A primeira: A culpa do homem ou a condição injustificável do homem.

 

O Homem é culpado perante Deus, pois transgrediu Sua ordem.

 

A segunda: Deus é justo ou a justificação de Deus

 

Por Deus ser justo, Ele não pode deixar de aplicar as penalidades da Lei pela transgressão do homem a Sua ordem, desta forma, Ele não pode simplesmente inocentar o homem, Deus precisava cumprir a Lei e salvar o homem perdido.

 

A condição injustificável do homem

 

A corrupção da natureza humana, é umas das consequências do pecado de Adão, qual provocou a depravação total do homem, causando a incapacidade do homem redimir de seus pecados.

 

A depravação alcançou todas as partes da natureza humana, com isso o espírito do homem não é mais puro, o coração do homem tornou-se, corrupto, perverso, inclinado totalmente ao pecado e sua natureza é carnal[4].

 

Todos nós somos pecadores, não há justo na face da terra, nenhum homem sequer, não há quem entenda, não há quem busque a Deus, porque todos pecam e seus corações estão inclinados para o pecado. Desde a nossa concepção, nós nascemos no pecado[5], que o nosso coração é desesperadamente corrupto, que o mal está dentro de nós.

 

Essa é a situação deplorável do homem, você talvez em um ato de justificar seus erros, tenta enganar seu coração, dizendo que guardar toda a lei, lembre-se que ao tropeçar em um único ponto, você tropeçou e é culpado de transgredir todas as leis[6].

 

Mas como posso entender isso, bom podemos tentar exemplificar, com uma receita, você chega em casa, está com fome, corre até a geladeira, pega alguns ovos e começa quebra-lo em uma frigideira, quebra três bons, mas o quarto podre e caiu dentro da frigideira com os três bons. Neste momento a omelete ficou estragado. Talvez você se pergunte, mas tinha somente um ovo podre.

 

O padrão que Deus exige para entrar no céu é a perfeição, somente os perfeitos entram no céu, porque Deus é perfeito, e Ele compara nós com o padrão dEle. Você, eu, nós, não somos perfeitos. Nenhum de nós podemos entrar no reino do céu, com a nossa imperfeição.

 

Ao olhar para o retrato aqui demonstrado, o único pensamento que você pode observar é:

 

Estamos condenados!

 

Não há alternativa, não há a mínima chance, possibilidade de obtermos a salvação pela nossa justiça, de entrarmos no céu pelos nossos próprios méritos, esforços ou pela nossa religiosidade.

 

Não temos, não há a mínima chance.

 

A não ser pela Justificação de Deus.

 

A justificação de Deus

 

A justificação de Deus é a única forma do cristão obter a salvação. Deus não anula a Sua Lei para justificar o ímpio, aquilo que você não pode fazer, Deus fez por você[7].

 

O novo testamento afirma repetidamente que os cristãos são salvos com base na obra de Cristo e em seu favor[8].

 

A justificação desempenhou um papel significativo na teologia de João Calvino[9]. Ele acreditava que um relacionamento salvador com Deus não pode existir separadamente da justificação.

 

Calvino assim como Lutero, enfatizava que a justificação é somente pela fé. Um relacionamento correto com Deus não pode ser obtido por obras, por esse motivo o único caminho para a salvação é a fé. Contudo, a fé não pode ser construída como uma obra, como se a fé, por si, justificasse, pois se fosse assim, então a fé seria uma boa obra que nos torna justos com Deus.

 

A fé é um instrumento que nos une a Cristo, logo, os crentes são justificados por Cristo, o crucificado e ressurreto. A fé, por si, estritamente falando, não justifica. A fé se justifica como um instrumento, recebendo Cristo por justiça e vida.

 

Segundo Calvino a fé é viva, ativa e vital. A fé verdadeira tem um efeito poderoso sobre as nossas vidas. Nós sentimos a doçura do amor de Deus e somos dominados completamente por ela. De fato, somos tão cativados por seu amor, que nossos corações são atraídos a colocar nossa confiança em Deus.

 

A fé é um dom de Deus, mas podemos também afirmar que a fé deriva da Palavra de Deus, do ouvir de Deus[10]. A fé, coloca a sua confiança na Palavra de Deus e em sua promessa, por isso ela deriva da Palavra de Deus e do evangelho de Jesus Cristo.

 

Então como Deus se tornou o justificador daqueles que creem?

 

Deus mandou seu único Filho, Jesus Cristo, como seu substituto. Jesus Cristo pagou a pena pelo pecado do homem.

 

Deus é Justo e não poderia justificar o homem comprometendo a Sua Lei. O salário do pecado é a morte[11], o homem pecou e merece a morte. A condenação é justa, mas Deus, por amor, deu Seu Único Filho para morrer a nossa morte e assim pagar o preço do nosso resgate[12].

 

Nós somos justificados por causa dos méritos de Cristo, por conta do sacrifício de Cristo, somente alguém, sem pecado, nascido de uma virgem, puro, poderia vencer a morte. Somente Ele, podia pagar o preço de nossa justificação, Jesus Cristo, o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo.

 

Quando Jesus Cristo veio, Ele foi para a cruz em nosso lugar, quando Jesus estava lá na cruz, depois de ser humilhado, depois de ser cuspido, de ser pregado, de ser torturado e de ser açoitado, zombado, exposto naquele momento de horror e vergonha, Deus fez cair sobre Ele a iniquidade de todos nós.

 

Deus jogou sobre Ele a nossa maldade, incredulidade, impureza, vaidade, orgulho, soberba, ou seja, todos os nossos pecados. Jesus foi ferido, foi traspassado pelas nossas iniquidades, e quando Jesus estava no alto daquela cruz, Ele foi feito pecador por nós, toda a condenação que o nosso pecado merecia estava sobre Ele.

 

Jesus pagou o maior preço, preço esse que nenhum de nós seriamos capazes de pagar, preço pelos nossos pecados. Desta forma, Justificação é o ato de Deus mediante o qual Ele, em sua graça, declara justo o pecador pelos méritos de Cristo, isentando-o de qualquer condenação e recebe esta Justificação pela fé, através de Cristo Jesus[13].

 

O homem receber a Justificação pela fé, porém, ele não pode se vangloriar nela, porque a fé é um dom de Deus. A fé é um ato da parte do homem, mas, a justificação acontece pelos méritos de Cristo e somente pela fé nEle[14].

 

Deus não torna o homem bom para salvá-lo, isso não é Justificação, não podemos confundir Justificação com Santificação.

 

  • A Justificação não se refere a uma mudança intrínseca no indivíduo, e sim a uma declaração feita por Deus. Visto que não temos justiça própria e somos culpados diante de Deus, Ele nos declara justos com base na expiação de nossos pecados por Cristo e na sua justiça imputada a nós[15].

 

Cristo Jesus foi considerado pecador e recebeu o castigado em nosso lugar, tomou o nosso lugar e deu-nos o lugar dEle, tomou o nosso pecado e deu-nos a Sua Justiça.

 

Conclusão

 

 A Justificação é um ato único e exclusivo e que não se repete, não acontece dentro de nós, não é algo que Deus faz em você, mas é algo que Deus faz por você. Ela é uma justiça imputada, atribuída somente a Ele, por Ele e através dEle.

 

A Justificação é pela graça, reconciliando-nos com Deus, mediante a fé, com base somente nos méritos de Cristo. Deus não somente nos declara justos com a Justificação, mas posteriormente nos torna justos com a Santificação.

 

A fonte da Justificação é a graça de Deus, o fundamento da Justificação é a obra de Cristo e o meio da Justificação é a fé. Aqueles que creem em Jesus Cristo, estão livres da condenação.

 

Jesus Cristo ao fazer-se homem, morrendo na cruz, pega o escrito de dívida que havia contra nós, rasga este escrito de dívida e a encrava na cruz. Está pago!

 

Aquele que crê em Cristo Jesus não deve mais nada, pois foi justificado. Naquele momento Jesus Cristo pagou, toda a sua, a minha a nossa dívida[16].

 

Cristo Jesus livra-nos da punição e desta forma nos torna justo. Por isso que a Justificação é mais do que o perdão.

 

Não pode haver condenação para quem foi justificado.

 

[1] Bíblia Estudo de Genebra. 2ª Edição Revisada e Ampliada

 

[2] Romanos 1:17

 

[3] Institutas 3.11.1

 

[4] “Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e desesperadamente corrupto; quem o conhecerá?” (Jeremias 17.9). “Porque do coração procedem maus desígnios, homicídios, adultérios, prostituição, furtos, falsos testemunhos, blasfêmias” (Mateus 15.19). “como está escrito: Não há justo, nem um sequer, não há quem entenda, não há quem busque a Deus; todos se extraviaram, à uma se fizeram inúteis; não há quem faça o bem, não há nem um sequer. A garganta deles é sepulcro aberto; com a língua, urdem engano, veneno de víbora está nos seus lábios, a boca, eles a têm cheia de maldição e de amargura; são os seus pés velozes para derramar sangue, nos seus caminhos, há destruição e miséria; desconheceram o caminho da paz. Não há temor de Deus diante de seus olhos, pois todos pecaram e carecem da glória de Deus” (Romanos 3.10-18, 23).

 

[5] “Eu nasci na iniquidade, e em pecado me concebeu minha mãe” (Salmo 51.5)

 

[6] “Pois qualquer que guarda toda a lei, mas tropeça em um só ponto, se torna culpado de todos” (Tiago 2.10)

 

[7] “Ora, sabemos que tudo o que a lei diz, aos que vivem na lei o diz para que se cale toda boca, e todo o mundo seja culpável perante Deus, visto que ninguém será justificado diante dele por obras da lei, em razão de que pela lei vem o pleno conhecimento do pecado. Mas agora, sem lei, se manifestou a justiça de Deus testemunhada pela lei e pelos profetas; justiça de Deus mediante a fé em Jesus Cristo, para todos e sobre todos os que creem; porque não há distinção, pois todos pecaram e carecem da glória de Deus, sendo justificados gratuitamente, por sua graça, mediante a redenção que há em Cristo Jesus a quem Deus propôs, no seu sangue, como propiciação, mediante a fé, para manifestar a sua justiça, por ter Deus, na sua tolerância, deixado impunes os pecados anteriormente cometidos; tendo em vista a manifestação da sua justiça no tempo presente, para ele mesmo ser justo e o justificador daquele que tem fé em Jesus” (Romanos 3.19-26)

 

[8] Epístola de Paulo aos Romenos 3.22-24

 

[9] Para um resumo do ensino de Calvino sobre justificação, veja Lane, Justification by Faith in catholic-Protestant Dialogue

 

[10] “A fé vem do ouvir”(Romanos10.17)

 

[11]porque o salário do pecado é morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus, nosso Senhor” (Romanos 6.23)

 

[12] “Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (João 3.16) “Mas Deus prova o seu próprio amor para conosco pelo fato de ter Cristo morrido por nós, sendo nós ainda pecadores” (Romanos 5.8)

 

[13] “Ora, ao que trabalha, o salário não é considerado como favor, e sim como dívida. Mas, ao que não trabalha, porém crê naquele que justifica o ímpio, a sua fé lhe é atribuída como justiça” (Romanos 4.5)

 

[14] “Concluímos, pois, que o homem é justificado pela fé, independentemente das obras da lei” (Romanos 3.28)

 

[15] Aquele que não conheceu pecado, ele o fez pecado por nós; para que, nele, fôssemos feitos justiça de Deus” (2 Coríntio 5.21)

 

[16] “Agora, pois, já nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus” (Romanos 8.1)

 

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